Estética retrô

Animações aleatórias, fontes coloridas que saltam, espaços para comentários e frames de HTML que fizeram parte do início da internet e blogs pessoais. Aproveitando o contexto de seu novo longa, a Marvel resgatou tais elementos em um website para promoção de Capitã Marvel, cuja história se passa em 1995. O portal conta com trailer e imagens do filme, um jogo para o visitante adivinhar se uma pessoa é humana ou skrull (raça alienígena que se disfarça de humanos), entre outras atrações, todas com cara de duas décadas atrás.

Portal foi feito para divulgação de informações sobre o longa da Marvel (Crédito: Reprodução/Marvel)

O site interativo e com estética retrô faz parte da estratégia de divulgação do estúdio para o título. Na Comic Con Experience deste ano, a empresa instalou uma fachada da antiga Blockbuster para relembrar a cadeia de locadora de fitas VHS que foi uma multinacional poderosa entre os anos 1980 e 1990. A mesma referência tem aparecido na novela Verão 90, da Rede Globo, seja em seu conteúdo, com o resgate de marcas e referências a ícones culturais dos anos 1990, como a MTV (retratada como Pop TV na trama) e até mesmo em seus intervalos comerciais, com as marcas veiculando campanhas da época ou criando novas peças inspiradas na época da trama. “Tudo isso gera e alimenta conversas entre amigos, em casa, no ambiente de trabalho. Além da novela, um intervalo temático potencializa esse movimento e permite que marcas aproveitem a sensação de nostalgia para falar diretamente com seus consumidores, com filmes originais, no formato em que as pessoas viram pela primeira vez”, disse Roberto Schmidt, diretor de planejamento comercial da Globo ao Meio & Mensagem quando anunciou os intervalos especiais.

A retomada do vintage também se fez presente no filme Bandersnatch, da Netflix, para a antologia Black Mirror, em que a história retoma o contexto dos anos 1980 e o fluxo narrativo se inspira na interatividade de livros e, principalmente, jogos eletrônicos. Outros exemplos são séries como Stranger ThingsGlow e Oaks.

Stranger Things se passa nos anos 1980 (Crédito: Reprodução/Netflix)

Para Ricardo Tiezzi, roteirista e professor da Roteiraria, essa tendência de resgatar certos períodos acontece de quando em quando, pois a narrativa tem uma certa vocação nostálgica, que a leva a revisitar algumas épocas. “Agora, por exemplo, como Stranger Things e os demais exemplos citados, parece que os anos 1980 e 1990 estão sendo bem vistos. De uma forma geral, desde Homero, as histórias são sempre recontadas. Tem até uma frase do arquiteto catalão Antoni Gaudí em que ele diz que ‘a originalidade é a volta às origens’, ou seja, os narradores vão cavar na tradição histórias que podem ser deslocadas, isto é, velhas histórias com novas roupagens”, afirma.

Luiza Loyola, especialista da consultoria de tendências da WGSN, explica que nostalgia não está só no conteúdo, mas também em relançamentos de produtos, e isso acontece pela afetividade relacionada por tempos mais desligados digitalmente, com menos ansiedade e incerteza econômica. “Hoje, a nostalgia é uma ferramenta de vendas extremamente poderosa. As marcas estão aproveitando o conforto e a autenticidade do passado, reinventando e/ou redirecionando produtos retrô. Para os jovens que buscam experiência, trata-se de viver o presente com o passado – criando novos momentos a partir das memórias”, explica.

“Você tem o ganho da tradição, que o acúmulo de histórias traz, o afeto que determinadas histórias têm na memória e na sensibilidade do espectador e, tendo tudo isso a seu favor, ainda cria um deslocamento que renova e traz esse sabor de novidade, trazendo-as para o nosso tempo”, diz Tiezzi.

**Crédito da imagem no topo: Reprodução/Marvel

Fonte: M&M

O incrível projeto do fotógrafo que trabalha no aeroporto

Ibrahim – Ruanda

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Ele encontrou a maneira perfeita de unir sua paixão por fotografia com as milhares de pessoas diferentes que costuma cruzar todos os dias no aeroporto, já que trabalha no local. Entre momentos de calmaria, o turco sai pelos corredores de um dos aeroportos mais movimentados do mundo em busca de um bom retrato.

Nicole – Ucrânia

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O projeto começou em março deste ano e até agora já juntou 177 fotografias de pessoas de 77 países diferentes. A ideia é que o projeto apenas termine quando chegar no objetivo de fotografar pessoas de 100 países diferentes, não importa quanto tempo leve.

Freya – Escócia

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Observador, às vezes ele passa horas tentando encontrar um rosto que lhe chame atenção. Um cabelo diferente, uma peça de roupa exótica ou um olhar sincero são exemplos de motivos que o fazem abordar um viajante. Um projeto maravilhoso, que mostra como o mundo é rico e como podemos ser, ao mesmo tempo, tão iguais, porém tão diferentes.

Bash – Líbano

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Shayma – Kuwait

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Jussi – Finlândia

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Frédéric – França

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Kavinthida – Tailândia

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Parl – Estônia

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Indrė – Lituânia

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Christophe – Bélgica

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Idris – Nigéria

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Jargal – Mongólia

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Frankie – Inglaterra

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Paris – Estados Unidos

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Fonte: Hypeness

Mercado geek está pronto para pular de fase no Brasil

S¿o Paulo, dezembro de 2016. Cobertura do evento CCXP 2016 no S¿o Paulo EXPO. Foto: Carolina Vianna.

Segundo especialistas, o mercado geek ainda está longe de atingir seu potencial total no Brasil. A quantidade de filmes, séries, quadrinhos, games, produtos licenciados e eventos como a CCXP, que acontece a partir desta quinta-feira, 6, em São Paulo, é só um indício da proporção que o segmento pode ter. Pelo menos essa é a opinião de representantes de empresas ligadas a esse universo, como Hasbro, Piticas, Social Comics, Imaginarium e Nerd ao Cubo. “Se você analisar alguns nichos, como o cinema, dos dez filmes mais vistos em 2017, oito eram ligados a algo da cultura pop, super-heróis ou outra temática relacionada ao mundo geek. Podemos avaliar que a cultura pop ainda está em alta e nem alcançou um nível de estabilização. Há muito a ser explorado”, diz Kellen Silverio, diretora de marketing da Hasbro.

(Crédito: Hermes Rivera/Unsplash)

Ao Meio & Mensagem, executivos de cada marca compartilharam suas percepções sobre o desenvolvimento desse segmento, quais as lacunas podem ser exploradas e os obstáculos para o avanço do universo geek em produtos e serviços.

Definição

Geek, nerd, game, cultura pop: todos são conceitos muito difundidos e um tanto nebulosos. Nesse embalo, as marcas podem se perder na criação de produtos e linhas geek. “Eu prestei consultoria um tempo atrás pra uma marca que pegava a imagem do Batman e colocava em um produto e chama isso de linha geek. Isso não é uma linha Geek, isso é só um produto com o Batman estampado”, diz João Paulo Sette, criador do Social Comic, plataforma de streaming para quadrinhos. Para ele, o diferencial de um produto geek está no efeito de paixão e necessidade que determinada peça licenciada causa no consumidor.

“Geek está muito mais relacionado àquilo que nos apaixona, que nos torna fã de alguma coisa. Nós sempre seremos fã de algo. Minha avó, lá na Paraíba, escuta todos os dias Padre Reginaldo Manzotti. Ela adora o Padre, tem camisa e livro dele. Minha avó é uma geek do Padre Reginaldo do mesmo jeito que eu sou do Spider Man e do Senhor dos Anéis? Quem diz que o que ela sente pelo padre é diferente do que eu sinto pelo Aranha ou pelos Hobbits? Por isso que o mercado geek é muito mais amplo do que a gente imagina”, diz o executivo.

Comunicação

É no fanatismo descrito por João Paulo que a Piticas encontrou uma das peças chaves para conquistar o consumidor de produtos geek, por meio de camisetas, moletons e outras peças de vestuário. Felipe Rossetti, co-fundador, avalia que as empresas devem se aprofundar nos estudos sobre quem é o público-alvo e a série, desenho, filme, game ou HQ, que é consumido.

“Esse nosso nicho de mercado é bem fechado e diferente. Nos outros nichos você coloca um influenciador de massa geral, que a relação é muito direta entre número de seguidores e engajamento. Então quando nós fazemos uma campanha ou produto, é para o fã. Ou seja, tem que ter diferença na estampa: colocamos um detalhe que só quem é fã vai entender”, conta.

“Há um processo interessante das marcas e redes de varejo conhecerem o próprio mercado, se sentirem mais confiantes e ampliar o investimento em coleções e ações de promoção”, diz Thiago Colares, diretor de marketing da Imaginarium. “Isso pode gerar oferta consistente e com calendário mais constante, em virtude desse conhecimento mais aprofundado do próprio mercado, que, ao meu ver, ainda está em maturação.”

Questão de inovação

Para Diogo Santos, sócio-fundador da Nerd ao Cubo, clube de assinatura de colecionáveis e outros objetos, todas as empresas devem e podem estar nesse segmento, desde que saiba a ponte entre seu produto ou serviço e o conteúdo: “Vejamos o mercado de carros por exemplo. A industria automotiva ainda não apostou no mercado Geek. Já houve carros da Copa, do Rock In Rio… Houve, sim, um Jeep Renegade Batman vs Superman, mas não foi lançado no Brasil. Sabemos que o Camaro teve um bom número de vendas impulsionado pelo Bumblebee de Transformers, que inclusive tem novo filme agora em dezembro. Como representante da classe geek, eu afirmo que meu maior sonho como consumidor desse mercado é ter um Delorean (carro da série De Volta para o Futuro) e tenho certeza que há milhares como eu”, diz.

Para Thiago Colares, “a oferta do varejo, no Brasil, ainda é fragmentada, em players que em muitos casos não possuem abrangência nacional. Há um potencial a ser explorado no varejo físico e cross com opções de entretenimento e experiência, como se vê no mercado americano.”

Felipe Rossetti acredita que uma das áreas dentro do universo geek que carece de exploração são os animes e games. Segundo o executivo, o faturamento com produtos relacionados a game da Piticas cresceu 20% nos últimos três anos. “É o nicho que mais cresce dentro do mercado geek”, diz.

“Lá fora, tanto na Ásia quanto nos EUA, são áreas bem consolidadas, e as empresas brasileiras nunca acreditaram muito nesse nicho de mercado. Agora que estão começando a enxergar que existe um mercado gigantesco. Podemos ver isso com as magazines que até pouco tempo atrás não trabalhavam com licenciamento em suas estampas”, diz Felipe. “Agora, todas estão entrando com força no produto licenciado. Isso é um perfeito exemplo do porquê e como o mercado está se expandido. Não foi explorado antes, porque não enxergavam as possibilidades de lucro.”

Obstáculos

Além de definir, comunicar e inovar, um dos entraves apontados por Diogo Santos é o sistema de importação e exportação de produtos, cujas taxas são caras e as regras numerosas. “As detentoras das marcas precisam facilitar o licenciamento. O Brasil não produz mais porque as portas estão fechadas. Pouquíssimas marcas conseguem licenciar e têm seguir regras que limitam os produtos, além de arcar com um custo alto. Essa é uma área que pode mudar, só depende das marcas. Quanto à importação, infelizmente o importador precisa repassar para o cliente os custos super altos de tarifas, de distribuição e ainda embutir sua margem. Dessa forma tudo fica caro”, diz. Tudo isso encarece produtos: “Os Pop Funkos, que são uma verdadeira febre, por exemplo, são vendidos no Brasil com um valor médio de 10 a 15 vezes superior ao preço de saída de fábrica”.

Fonte: Meio & Mensagem

Garotos de programa e ativistas de sofá

Buffet self-service variado e por quilo, ambiente agradável, rapadura de cortesia e até música ao vivo. Com base nas avaliações em redes sociais, assim é o restaurante em que o deputado Betinho Gomes (PSBD/PE) almoçou em Brasília (DF) na sexta-feira de 20 de janeiro de 2017. Mas haja rapadura para equilibrar o amargor da conta: R$ 155,80 por uma só refeição. Bem, ao menos é o que afirma a nota fiscal submetida pelo parlamentar à Câmara dos Deputados para reembolso. Com o ressarcimento feito, pode-se dizer que o deputado #sextou com dinheiro público. O fato provavelmente teria passado batido se não fosse por um tweet que, meses depois, anunciou o gasto como “suspeito” e escancarou a cópia do cupom fiscal para quem quisesse conferir. A dedo-duro tem nome: Rosie, uma robô que foi criada para combater a corrupção.

Há tempos que os brasileiros Eduardo Cuducos, Irio Musskopf e Felipe Cabral estavam incomodados com a constante questão da corrupção e demais problemas político-sociais do Brasil. A pauta de Política ganhou força nas redes sociais nos últimos anos e aflorou não só memes e piadas, mas principalmente discursos de ódio e rixas.

Em meio a textões, coxinhas, petralhas e fake news, os três jovens sabiam que havia gente trabalhando para fazer real diferença ao tratar do assunto na internet, mas que pouco recebiam atenção da mídia e do público: os grupos de projetos de tecnologia cívica. O termo “civic tech”, em inglês, refere-se a iniciativas que fazem uso da tecnologia para impactar positivamente a sociedade. São projetos de sites, plataformas e redes colaborativas online baseados na transparência e dados abertos que buscam aproximar as pessoas e facilitar o exercício da cidadania. Os projetos costumam ser apartidários e não-raro são financiados somente por doações.

Profissionais de tecnologia, Eduardo, Irio e Felipe conheciam alguns dos projetos cívicos que estavam em desenvolvimento no Brasil e no mundo, mas a maioria dessas iniciativas falhava em um ponto em comum: a comunicação. Na percepção dos jovens, na hora de contar o que estavam fazendo e engajar os cidadãos, os projetos cívicos não eram bons o suficiente para conquistar a atenção das pessoas. Foi então que, em agosto de 2016, o trio convidou o jornalista Pedro Vilanova, que já se aventurava nas Ciência de Dados, para integrar a trupe.

“O controle social, mesmo usando tecnologia, só se dá com a participação das pessoas. ‘Política’ infelizmente é uma buzzword atualmente. As pessoas estão totalmente afastadas do tema. Elas não gostam de falar de política. As pessoas não se sentem à vontade. Elas gostam de manifestar ódio. Mas quando é para você sentar e conversar, as pessoas não se sentem tão à vontade, acham chato”, conta Pedro.

Para ele, porém, a comunicação dos veículos que tratam sobre Política precisa ter mais empatia e se adaptar ao público. “Dá pra entender que o brasileiro mora longe do trabalho, ele volta no ônibus sacudindo, no trem. O cara chega em casa, quando ele entra no Facebook, ele não está a fim de ver uma análise profunda. Ele quer ver meme, ele quer dar risada. Aí acaba que quem é o cara que cita política para o brasileiro é o Faustão, é o Luciano Huck, é o Tá no Ar. São as pessoas que misturam entretenimento.”

Pedro enxergou valor não só na possibilidade de unir Política à Tecnologia, mas também no desafio de falar sobre o tema de uma forma diferente, conquistando públicos que costumam ser avessos ao tópico. Juntos, eles decidiram pesquisar mais a fundo qual caminho percorreriam para testar a hipótese de que, sim, era possível combater a corrupção no Brasil com o auxílio de inteligência artificial.

Após muita pesquisa e conversas com pessoas que já trabalhavam com projetos cívicos, o grupo descobriu que cada almoço, carro alugado ou passagem de avião que é reembolsada pela Câmara dos Deputados aos parlamentares estão a alguns cliques do mouse de qualquer cidadão que tenha acesso à internet.

Em vigor desde 16 de maio de 2012, a Lei de Acesso à informação (Lei nº 12.527/2011), conhecida como LAI, regulamenta o livre acesso a todas as informações relacionadas à atividade da administração pública dos três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – em âmbito federal, estadual e municipal.

A regulamentação da transparência passiva, por sua vez, rege que qualquer pessoa, física ou jurídica, pode requerer gratuitamente a órgãos públicos informações e relatórios sobre atividades públicas de quaisquer natureza sem precisar sequer especificar o motivo. As únicas exceções previstas são documentos que incluam dados pessoais ou informações sigilosas, que possam colocar em risco a segurança da sociedade ou do Estado.

A LAI, portanto, regulamenta o acesso tanto a informações mais simples, como a descrição das atividades exercidas pelos órgãos, bem como dados sobre o uso do dinheiro público e até mesmo informações sobre o que é feito operacionalmente em áreas como a Saúde, Educação e Segurança públicas.

Quer saber detalhes sobre contratos de serviço e licitações? Resultados de ações ou projetos de entidades públicas? As solicitações podem ser feitas presencialmente por meio dos SICs (Serviços de Informação ao Cidadão) ou por meio dos e-SICs, nos sites de cada órgão. A normativa rege ainda que as informações solicitadas devem ser fornecidas dentro de um prazo de 20 dias, prorrogáveis por mais 10 dias mediante justificativa expressa. E se, por alguma razão, o órgão se negar a fornecer os dados, há ainda um sistema de instâncias ao qual se pode recorrer.

Trata-se de uma verba mensal disponibilizada por meio de reembolso aos deputados federais e senadores para auxiliar o desenvolvimento do trabalho parlamentar, com custeio de transporte, de alimentação, de consultorias e até mesmo de publicidade. Além do salário fixo de R$ 33.763,00, cada parlamentar tem um valor de CEAP que varia conforme o estado que representa. O valor fica entre R$ 30.788,66, para representantes do Distrito Federal, e R$ 45.612,49, para os representantes de Roraima. Para usar a CEAP, basta que o parlamentar submeta a nota fiscal da compra ou serviço à Câmara ou ao Senado. Em até 72 horas, o valor é reembolsado.

Quando Eduardo, Irio, Felipe e Pedro entraram no site da Câmara e se deparam com o volume e qualidade das informações disponíveis relativas à CEAP, eles tinham certeza de que aquele era um bom caminho para o projeto piloto que queriam desenvolver. “Galera, isso aqui é uma mina de ouro”, lembra Pedro, que complementa: “é um gasto público que tem muito dado. Porque a gente tem muito deputado e a cota parlamentar é muito abrangente.”

Outro motivo que levou o grupo a usar a CEAP da Câmara dos Deputados como ponto de partida foi a possibilidade de encontrarem um grande número de irregularidades por lá. Apesar de haver regras muito claras sobre as possibilidades de uso da Cota Parlamentar no chamado Ato de Mesa, o controle muitas vezes é feito pelos próprios parlamentares. “A gente percebeu que o controle em torno da Cota Parlamentar não era muito forte. O deputado tem fé para dizer se aquele reembolso é legal ou ilegal. Se o deputado afirma que o reembolso é válido, ele é válido. Isso deixou a gente com uma pulga atrás da orelha”, explicou Pedro.

Além do volume e qualidade dos dados e da chance de já começarem o projeto fazendo real diferença no combate à corrupção, segundo Pedro, na época não havia nenhum outro projeto trabalhando o Cotão. “A gente tinha muita vontade de fazer algo que não fosse espelhado ou sobrepusesse outro trabalho”, disse o jornalista.

Com uma base de mais de 3 milhões de reembolsos, o grupo já tinha insumo suficiente para começar o projeto. Era hora de formalizar o projeto piloto. Eduardo, Irio, Felipe e Pedro atraíram amigos para ajudar como voluntários, iniciaram uma campanha para levantar financiamento e batizaram o projeto. Nascia a Operação Serenata de Amor.

O nome foi inspirado no caso da política sueca Mona Sahlin, que nos anos 90 renunciou ao cargo público que exercia após ter sido denunciada por fazer compras pessoais, incluindo barras do famoso chocolate Toblerone, usando um cartão corporativo. O escândalo ocorrido na Suécia, que ficou conhecido como “Toblerone Affair”, infelizmente, é o dia a dia no Brasil. O nome encaixou perfeitamente à ideia do grupo, que era desenvolver uma inteligência artificial tão robusta que seria capaz de monitorar a corrupção na vírgula – nem um chocolate passaria batido.

Definido o foco do projeto, a Operação Serenata de Amor começou a alimentar sua inteligência artificial. Chamada de Rosie, a robô foi aprendendo aos poucos o que era a Cota Parlamentar e quais eram os parâmetros com que iria trabalhar. Diferente de humanos, a robô não tem capacidade de julgamento e filtra os dados que por ela passam a partir das regras que foi ensinada.

O Ato da Mesa, conjunto de regras que rege o Cotão, deixa claro, por exemplo, que o parlamentar não pode utilizar a CEAP para pagar refeições para outras pessoas. Para identificar isso, Rosie foi alimentada com uma série de “hipóteses”. Ela aprendeu que há algo de suspeito se um comprovante submetido para reembolso tem um valor de refeição muito alto, lista mais de um prato ou há registros de refeições que foram compradas ao mesmo tempo em lugares diferentes. “A gente traçou essas hipóteses para identificar coisas que iam contra a convenção”, explicou Pedro. Afinal, fatores como os listados são indicativos de que o parlamentar teria usado a Cota para pagar refeições para outras pessoas além dele, o que fere as regras.

Em janeiro de 2017, após passar os comprovantes da base por esse filtro inicial, o grupo tinha em mãos nada menos que 8 mil casos suspeitos. Seguindo o plano de ação, eles fizeram alguns pedidos de explicação via LAI, questionando a validade dos reembolsos realizados com dinheiro público que iam contra as regras de uso da Cota. O grupo conseguiu que três Deputados fizessem o ressarcimento dos reembolsos envolvidos. Embora a empolgação tenha sido grande, eles sabiam que isso era um passo importante, porém ainda pequeno para o resultado que almejavam.

Com milhares de pedidos de explicação a serem feitos, eles decidiram convocar os amigos e pessoas que simpatizavam com o projeto para um mutirão. “A gente não vai conseguir ficar fazendo isso pro resto da vida. Vamos fazer um mutirão. Vamos tentar e fazer o máximo de pedidos via LAI, um mutirão de denúncias”, relembra Pedro. Durante alguns dias, 629 denúncias envolvendo 216 parlamentares foram feitas manualmente para a Câmara. O serão contou com cobertura de texto e vídeo pelo Twitter e teve boa repercussão, principalmente devido a algumas irregularidades um tanto quanto pitorescas que, até então, apesar de estarem disponíveis publicamente, nunca tinham vindo à tona.

Embora a CEAP não possa ser usada para o consumo de bebidas alcoólicas, um dos parlamentares teve o reembolso de um cupom fiscal que listava o consumo de cerveja em um restaurante em Las Vegas (EUA). Em outro caso, um único deputado apresentou cupons fiscais de treze almoços que teriam ocorrido no mesmo dia. Além deste, houve vários casos de deputados que teriam consumido cinco sanduíches ou oito pizzas na mesma refeição. Claramente se tratava do uso ilegal da CEAP e, antes da Rosie, nunca ninguém tinha conseguido trazer isso a público efetivamente.

Engajar as pessoas em torno da discussão do tema da corrupção era um dos objetivos do grupo. Mas a principal razão que leva o Serenata a comemorar é saber que, por conta da Rosie, do Jarbas, 134 deputados federais retornaram aos cofres públicos um total de R$ 50.569,18. E isso é só o valor relativo a notas fiscais de alimentação que haviam sido reembolsadas indevidamente. Com tudo isso, pode-se dizer que o projeto piloto da Serenata de Amor está cumprido e a hipótese de que é possível combater a corrupção com um robô, mais que provada. E agora, o que vem pela frente?

Se você entrar no Twitter da Rosie ou no painel do Jarbas, vai notar que de março a setembro deste ano os dois “saíram de férias”.Segundo a Serenata, o hiato se deu pois foi necessário alocar braço e recursos de servidor nos novos projetos que vêm aí. O grande poder de impacto da Rosie hoje é aplicar o “pode” e “não pode” das regras de uso da Cota aos reembolsos realizados, marcando de forma automatizada o que é suspeito. Porém, a massa de dados da CEAP traz também uma série de fatos que não são ilegais, mas que podem ser questionados e explorados.

Um exemplo disso é a discussão que o grupo levantou recentemente em relação ao valor máximo mensal de custeio de combustível e lubrificantes automotivos disponível para cada deputado, atualmente fixo em R$ 6.000,00. Segundo a análise, o valor é suficiente para que dois carros populares rodem 200 km por dia todos os dias do mês, incluindo fins de semana e feriados. Embora alto, em 2017 o teto do combustível foi usado em sua totalidade 485 vezes. Nada disso é ilegal pelo Ato de Mesa, mas faz sentido gastar R$ 6.000,00 por mês em combustível?

Assim, com reflexões que acontecem de maneira orgânica dentro da equipe técnica e não-técnica, a Serenata passou a fazer análises paralelas às regras usando a mesma base de informações. “A gente faz isso com a estruturação de dados que a gente já tem, nesse caso a gente não usa a inteligência artificial, mas usa uma análise de ciência de dados em alto nível, digamos assim, e entrega isso para a população da forma mais acessível possível”, conta Pedro.

Esse tipo de análise foi fundamental para aproximar o projeto de profissionais de auditoria e também de órgãos como os Tribunais de Conta. De acordo com Pedro, as análises e tecnologia da Serenata tem chamado a atenção de pessoas que têm um grande conhecimento sobre boas práticas do uso do dinheiro público, combate a fraudes e regulamentação de licitações. “A gente tem amigos servidores públicos, auditores que passaram a usar, como forma de brainstorm, digamos assim, análises que a gente faz para auxiliar trabalhos deles”, explica.

Essa aproximação do projeto com órgãos públicos de controladoria e profissionais de auditoria tem se mostrado imprescindível para o próximo passo que a Serenata vai dar: atuar na esfera municipal, mais precisamente nas chamadas dispensas de licitação. O objetivo é monitorar e buscar por suspeitas em compras que foram realizadas sem necessidade de licitação pelas prefeituras dos 100 municípios mais populosos do Brasil. “A gente entende que assim a gente vai dar poder a mais gente. Os 100 maiores municípios do país representam 40% da população brasileira”, explica Pedro.

Para realizar compras ou contratar serviços, os órgãos públicos precisam cumprir o processo de licitação. Contudo, o procedimento é dispensado para gastos inferiores a R$ 8.000,00. Todas as compras são listadas nos chamados Diários Oficiais Municipais. Os Diários são documentos emitidos diariamente pelas prefeituras em que são listadas leis, decretos, informações de interesse dos servidores, contratos, editais, informações sobre concursos públicos, licitações e demais assuntos relativos à administração municipal.

Os documentos são disponibilizados via PDF nos sites das prefeituras e, embora de livre acesso, não são padronizados. Aí está o primeiro desafio do grupo no novo projeto: para que a Rosie e o Jarbas analisem e organizem as informações, todos os dados precisam estar padronizados na estrutura de tabelas. Até o momento, a Serenata já iniciou as análises dos Diários Oficiais dos municípios de Porto Alegre (RS) e Goiânia (GO). Além destes, há outros 40 municípios que estão sob estudo.

O início da operação com os Diários Oficiais será semelhante ao que aconteceu com a CEAP. É necessário entender a legislação, criar hipóteses e fazer testes manuais antes de alimentar o cérebro da Rosie. “Do ponto de vista técnico, o processo de aprendizagem é bem parecido [com o da CEAP], é entender a legislação, conversar com pessoas especialistas, analisar, encontrar padrões e colocar a IA para trabalhar”, explica Pedro.

Embora incipiente, o trabalho manual já começou a pescar algumas suspeitas, como cabos HDMI que custaram R$ 2.000,00 e passagens para a Europa que foram compradas sem grandes justificativas. Diferente do que foi feito com a Cota Parlamentar, a Serenata não quer se basear somente na exposição das suspeitas via Twitter para garantir a verificação.

“Uma coisa que a gente vai buscar, sim, é o respaldo técnico de algum órgão competente para que a gente tenha, sim, o acesso à população mas consiga falar que tal órgão está responsável por aquilo e que o nosso trabalho gerou determinado impacto na sociedade”, afirma Pedro, que diz não haver ainda uma rota definida para envio das denúncias e que não são descartados trabalhos em conjunto com as Câmaras Municipais e até mesmo com o Ministério Público.

Com foco nas Eleições que aconteceram em outubro de 2018, a equipe do Serenata de Amor, em parceria com o Brasil.io, trabalhou na criação do Perfil Político, um projeto que visa tornar os dados públicos que se tem a respeito dos candidatos ainda mais públicos – isto é, mais acessíveis. Ao aglutinar dados do TSE, da Câmara, da Receita Federal e de diversos outros órgãos públicos, o Perfil Político quer ser uma fonte de dados confiáveis não só para o público em geral, mas principalmente para o profissional de comunicação, tais como jornalistas de pequenos veículos, youtubers, blogueiros e radialistas.

Segundo Pedro Vilanova, a ideia de ter os profissionais de comunicação como público primário do projeto é focada na possibilidade de amplificar o alcance das informações de qualidade, especialmente fora das capitais e grandes centros, estimulando o voto consciente. “Quando eu tô votando nessa pessoa, eu tô votando nessas empresas, eu tô votando nesse projeto, eu tô votando em meio ambiente”, exemplifica Pedro.

Entre as informações que são disponibilizadas, estão o quanto ele enriqueceu durante sua trajetória na vida pública e o histórico de candidaturas. Tudo isso é trazido em uma interface amigável e fácil de usar, como uma espécie de “Linkedin”. O Serenata de Amor frisou ainda que o projeto é apartidário e não tem intenção de doutrinar o voto, mas de simplesmente facilitar o acessos a informações públicas sobre as pessoas que estão dispostas a assumir os cargos das gestões estaduais e federal.

  • Reportagem: Hypeness
  • Edição: Clara Caldeira
  • Produção Executiva: Livia Jácome, Rafael Rosa e Enio Miki
  • Iniciativa: Hypeness
  • Arte: Damiris Ribeiro, Enio Miki e Nohan Ribeiro
  • Vídeo: Vinicius Maia
  • Narração do vídeo: Rafael Oliver
  • Desenvolvimento: WebProducer

Fonte: Hypeness

Escola de madeira na Amazônia é eleita melhor obra de arquitetura do mundo

O prêmio Riba International Prize (Royal Institute of British Architects), considerado um dos mais importantes da arquitetura, foi entregue para o arquiteto Marcelo Rosenbaum. O reconhecimento veio pelo projeto arquitetônico Aldeia das Criançasque fica na fazenda Canuanã, no Tocantins e se destaca pela forma inovadora com que se integra com o meio ambiente.

A escola, feita em parceria com o escritório Aleph Zero, é pensada para atender aos anseios da população local e foi feita quase que inteiramente com madeira reaproveitada. O projeto inova ao integrar o edifício ao cenário natural, colocando em prática o conceito de sustentabilidade econômica e ambiental. Aliás, falamos de um local especial, que integra três biomas, cerrado, pantanal e amazônico.

A escola se destacou por unir sustentabilidade com convívio social

Durante as etapas, Rosenbaum buscou envolver alunos e comunidade na projeção das salas de aula, das varandas e dos espaços comuns. A ideia era manter vivo valores indígenas e passar uma sensação de pertencimento para as crianças em processo de amadurecimento. Foram realizados encontros com mais de 540 adolescentes, responsáveis pela criação de jogos e workshops pensados para entender as necessidades dos estudantes e os conceitos de convívio em comunidade.

O complexo atende cerca de 800 alunos e alguns moram no local. O fato abraça o conceito de empatia, pois se entrelaça ao cotidiano da comunidade. A escola possui duas vilas, uma masculina e outra feminina. Os dormitórios foram transformados em 45 unidades para seis alunos cada. Existem também espaços de convivência, como a sala de TV, sala de leitura, varandas, pátios e redários. Elementos para valorizar a ancestralidade e elevar a autoestima dos pequenos.

A expectativa agora fica por conta dos avanços na qualidade de ensino

O Tocantins é uma das regiões mais quentes do Brasil. Na capital Palmas, por exemplo, as temperaturas ultrapassam facilmente a casa dos 40 graus. Por isso, o prédio possui paredes com frestas, que permitem a ventilação natural. Ou seja, na Aldeia das Crianças não existe ar-condicionado. Os alunos só reclamam do frio durante a noite, mas isso se resolve com cobertores.

“O desafio foi convencer alunos e professores que recursos naturais representam sim progresso. Ser moderno não é sinônimo de construções com vidros, paredes de concreto, aço ou ar-condicionado”,explicou ao The Guardian Gustavo Utrabo, um dos fundadores do Aleph Zero.

O local reúne três biomas, cerrado, pantanal e amazônico

Além do Riba, Aldeia das Crianças recebeu em fevereiro passado o prêmio de Arquitetura Educacional, entregue pela Building of the Year. O centro educacional feito por Rosenbaum em parceria com o Aleph Zero, venceu outros 20 concorrentes de 16 países, entre eles Itália, Japão e Hungria. O convite foi feito pela Fundação Bradesco, responsável por construir a escola na década de 1970.

Fonte: hypeness

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